Foto: Mário de Sousa

Outro dia, um jovem repórter dizia-me, com grande convicção, que mantém sempre distância absoluta dos fatos e das pesoas, " Uma clara neutralidade diante do sujeito e do objeto", para ser justo nas suas reportagens.

Ao falar isso com um certo orgulho, mas sem brilho nos olhos, deu-me a impressão de se tratar do cultor de uma língua que só admitisse predicados, de uma justiça que dispensasse toda afetividade ou de uma crítica incapaz de se comprometer.

Pois és, jovem repórter do primeiro parágrafo, o mais vunerável dos "focas". É bem provável que tenhas lido com fervor reverencial o manual de redação mais próximo, mas tua contribuição ao jornal talvez não vá muito além do computador que usas para promover a justiça factual de cada dia.

No fundo, tens um convívio muito difícil com o poder ( que por certo temes) e te abrigas sob o manto da distância, para não correres o risco de te corromper com esse vírus que costuma estocar-se na política, no dinheiro e no sucesso em geral.

De tanto evitares a alcunha de "chapa-branca", acabas por ser injusto. Perdes, pela neutralidade ascética, o juízo maior, que não se produz pela simples distância, mas por um contato muito próximo da razão e da sensibilidade com o assunto da tua reportagem.

Tenho minhas dúvidas de que um repórter sem paixão possa prestar serviço relevante ao jornal em que trabalha. Na falta de paixão, sobra-te uma visão crítica do munto, o que não é mau em si, mas se torna deletério no abuso - expectativa mais comum do teu editor.

Algumas vezes te socorres de algum notável plantão, para criticar assunto a que ele se oponha ou personagem do qual seja adversário. Com isso, pensas enriquecer o texto. Cuidado. Sem avaliar a crítica pescada com a devida profundidade, cometerás erro jornalístico e injustiça com os envolvidos.

Sei que não tens tanta culpa por tudo o que te jogo impiedosamente na cara. Não há mais esquina nas redações. Fala-se digitalmente e por escrito. Não há nem mesmo a fala grossa do editor nos chamando - tão carinhosamente - de "asnos". Não aprendemos nada de ninguém. Tudo advém da estrutura do veículo e das estruturas que esse veículo serve. Educas-te a frio e sozinho.

Sobre teu complexo de inferioridade diante do poder, recomendo uma reflexão sobre a diferença, muito importante, entre poder e autoridade. Esta se refere a alguém devidamente qualificado para o exercício de relevante serviço público, selecionado pelo voto ou por simples escolha. Já o poder, no folclore político, refere-se ao exercício discricionário do mando, confundindo-se com arbítrio. Não deixes de fazer essa distinção antes de dar início à tua matéria, para que, por desprezo ao desmando dos poderosos, não percebas a utilidade do bom uso da autoridade.

No meu percurso de jornalista, conheci três notáves, que pouco se enquadrariam nessa neutralidade justiceira que professas hoje. Exerciam a sua profissão com a mesma ética diante do poder, da autoridade ou da miséria explícita. Tinham a paixão na medula, embora fossem tão diversos - quase opostos, se confrontados.

Conheci o Dr Julio Mesquita Filho, levado pelo Paulo Duarte. Dele ouvi uma frase de arrepiar: "No fundo, tenho um profundo desprezo pela condição humana". Ele se referia à infinidade de bandalhos que percorriam a política e os negócios.

Aquele desprezo, na verdade, era o espelho da sua paixão por pessoas e instituições. Tomava partido o tempo todo, falava e escrevia em nome dos seus princípios, desconhecia a neutralidade. Tinha enorme afeto pelas pessoas, inclusive adversários ideológicos, que abrigava com generosidade em seu jornal. Era amado e odiado, mas morreu respeitado como grande jornalista.

Com outro, convivi de perto. Era o homem do compromisso, da negociação, do pragmatismo mais absoluto, mas fiel à visão política que tinha do mundo Tinha um afeto de pai com os filhos e com o bando de neófitos que instruia em suas redações. Samuel Wainer nunca foi neutro na vida. Inventou o jornal moderno no Brasil e estimulou no jornalista a ousadia.

O derradeiro, talvez o maior deles, não era a penas a paixão - era a ira de Deus convertida em repórter, o abrigo de Deus convertido em editor. Quando chamava alguém de imbecil na redação (o que fazia com frequência), no máximo, estava querendo dizer "meu imbecil querido, vê se aprende alguma coisa". Professava a ideologia do afeto. Isso nunca lhe tirou o senso critico nem tornou menos violenta a espada que brandia contra os poderosos.

Quando os idiotas do CCC cercaram a minha casa na noite de 31 de março, na qual a minha primeira filha forçava sua entrada na vida, um repórter furou o cerco para dar força ao amigo, correndo todos os riscos. Vestia uma manta preta, lembrava de leve Rosbespierre e se chamva Cláudio Abramo.

Podes imaginar que uso o pretexto desta carta para conferir nostalgias. Não é apenas isso. Quero que te tornes um repórter. Menos robô, mais humano. Percebo, nas ingênuas injustiças que praticas em nome da fé profissional, que és um jornalista.

Tua profissão anda muito necessária num momento em que os meios se tornaram mais poderosos que os fins. Podes efetivamente contribuir para que a ciência sobre os fatos se torne um fator de conhecimento, não um louvor de tua equivocada neutralidade.

Jorge da Cunha Lima